É admirável o material literário e fílmico de relatos das
vítimas das grandes guerras.
Não abrigo na tortura, no medo e na morte o interesse. Mas
na sensibilidade, compreensão, força e convicção que o ser convida-nos a fazer
o bem na Terra.
O diário de Hélène
Berr, um relato romanceado da ocupação nazista em Paris, apresenta-se feito
luz.
Um fragmento de 1943
pg. 195 a 197.
Terça-feira de manhã, 19 de outubro
Acordei angustiada com esse
problema de falta de compreensão dos outros. Cheguei a me perguntar se o que eu
queria não era algo impossível. Ontem, no Sorbonne, conversei com uma de minhas
colegas, muito gentil, a senhora Gibelin. Havia, de qualquer modo, entre nós,
um fosso de ignorância. No entanto, acho que, se ela soubesse, ficaria tão
angustiada quanto eu. É por isso que estou mil vezes errada ao não fazer o
esforço tão difícil de contar tudo, de sensibilizá-la, de fazê-la entender.
Mas existem em mim muitos
obstáculos a superar para realizar esse esforço: primeiro, a recusa de
despertar a compaixão dos outros (e, no entanto, sempre tento extrair-lhes a compreensão e fazê-los se sentir
envergonhados de si mesmos). Mas aqui há um problema grave: a natureza humana é
de tal ordem que o seu interlocutor só o entende se você lhe der provas
imediatas, provas em que você seja o centro; ele não se comoverá com o relato
referente a outras pessoas, mas apenas com a sua sorte. Somente contando-lhe as desgraças que o atingem
diretamente é que você conseguirá extrair-lhe alguma compreensão. Bem, dou-me
conta, agora, com desgosto, que estou no caminho errado: que eu é que me tornei
o centro dos interesses, sendo que a única coisa que realmente conta é a
tortura sofrida pelos outros, é uma questão de princípios, os milhares de casos
de pessoas que constituem essa questão; fico horrorizada quando um outro exibe
sua compaixão (que é muito mais fácil de obter do que a sua compreensão, pois
esta implica uma adesão de todo o seu ser, uma revisão completa de si mesmo).
Como superar esse dilema?
Há poucas almas generosas e
nobres o bastante para encarar a questão em si mesma, para não fazer de um
relato um caso apenas individual e sim enxergar através dele todo o sofrimento
dos outros.
Essas almas devem ter uma grande
inteligência e também uma grande sensibilidade, ver não é tudo, é preciso saber
sentir, é preciso saber sentir a angústia da mãe que teve seus filhos presos, a
tortura da mulher que foi separada do marido; a quantidade imensa de força que
cada deportado precisa ter, os sofrimentos e as misérias físicas que o atingem.
Acabo me perguntando se eu não
deveria simplesmente dividir o mundo em duas partes: uma com as pessoas que não
conseguem compreender (mesmo que fiquem sabendo, mesmo que eu lhes conte tudo;
ainda assim, muitas vezes penso que a falha é minha, por não saber como
persuadi-las), e outra com as que conseguem compreender. Resolver dirigir minha
afeição e minha preferência para essa segunda parte. Em suma, renunciar a uma
parcela da humanidade, renunciar à crença de que todo homem é perfectível.
E nessa categoria preferencial,
haveria uma grande quantidade de gente simples, gente do povo, e muitos poucos
daqueles que chamamos de “amigos”.
A grande descoberta que terei
feito neste ano será a do isolamento. O grande problema: preencher o fosso que
hoje me separa de qualquer pessoa que vejo.
***
Quanto mais ligações temos com
pessoas que dependem de nós porque gostamos delas ou simplesmente porque as
conhecemos, mais aumenta o sofrimento. Sofrer em causa própria não é nada,
nunca farei nenhuma queixa em relação a mim mesma, pois todo o sofrimento
pessoal, no momento, é, para mim, uma vitória a ser conquistada. Mas que
angústia em relação aos outros, aos meus próximos e pelos outros.
Entendo o tormento de mamãe, seu
sofrimento é dez vezes maior, multiplicado pelo número de vidas que dependem
dela.
“Saúde e alegria puras só podem
existir numa pessoa egoísta.
Um homem que pense muito nos seus semelhantes não
pode ser feliz.”
Keats. Carta a Bailey.
O diário de Hélène Berr: um relato da ocupação nazista de
Paris. Tradução Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
Tradução de: journal d’Hélène Berr. 307 p.
*Citação de John Keats.

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