quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Relato da Guerra

É admirável o material literário e fílmico de relatos das vítimas das grandes guerras.
Não abrigo na tortura, no medo e na morte o interesse. Mas na sensibilidade, compreensão, força e convicção que o ser convida-nos a fazer o bem na Terra.

 O diário de Hélène Berr, um relato romanceado da ocupação nazista em Paris, apresenta-se feito luz.

Um fragmento de 1943
pg. 195 a 197.

Terça-feira de manhã, 19 de outubro

Acordei angustiada com esse problema de falta de compreensão dos outros. Cheguei a me perguntar se o que eu queria não era algo impossível. Ontem, no Sorbonne, conversei com uma de minhas colegas, muito gentil, a senhora Gibelin. Havia, de qualquer modo, entre nós, um fosso de ignorância. No entanto, acho que, se ela soubesse, ficaria tão angustiada quanto eu. É por isso que estou mil vezes errada ao não fazer o esforço tão difícil de contar tudo, de sensibilizá-la, de fazê-la entender.

Mas existem em mim muitos obstáculos a superar para realizar esse esforço: primeiro, a recusa de despertar a compaixão dos outros (e, no entanto, sempre tento extrair-lhes a compreensão e fazê-los se sentir envergonhados de si mesmos). Mas aqui há um problema grave: a natureza humana é de tal ordem que o seu interlocutor só o entende se você lhe der provas imediatas, provas em que você seja o centro; ele não se comoverá com o relato referente a outras pessoas, mas apenas com a sua sorte. Somente contando-lhe as desgraças que o atingem diretamente é que você conseguirá extrair-lhe alguma compreensão. Bem, dou-me conta, agora, com desgosto, que estou no caminho errado: que eu é que me tornei o centro dos interesses, sendo que a única coisa que realmente conta é a tortura sofrida pelos outros, é uma questão de princípios, os milhares de casos de pessoas que constituem essa questão; fico horrorizada quando um outro exibe sua compaixão (que é muito mais fácil de obter do que a sua compreensão, pois esta implica uma adesão de todo o seu ser, uma revisão completa de si mesmo).

Como superar esse dilema?

Há poucas almas generosas e nobres o bastante para encarar a questão em si mesma, para não fazer de um relato um caso apenas individual e sim enxergar através dele todo o sofrimento dos outros.

Essas almas devem ter uma grande inteligência e também uma grande sensibilidade, ver não é tudo, é preciso saber sentir, é preciso saber sentir a angústia da mãe que teve seus filhos presos, a tortura da mulher que foi separada do marido; a quantidade imensa de força que cada deportado precisa ter, os sofrimentos e as misérias físicas que o atingem. 

Acabo me perguntando se eu não deveria simplesmente dividir o mundo em duas partes: uma com as pessoas que não conseguem compreender (mesmo que fiquem sabendo, mesmo que eu lhes conte tudo; ainda assim, muitas vezes penso que a falha é minha, por não saber como persuadi-las), e outra com as que conseguem compreender. Resolver dirigir minha afeição e minha preferência para essa segunda parte. Em suma, renunciar a uma parcela da humanidade, renunciar à crença de que todo homem é perfectível.

E nessa categoria preferencial, haveria uma grande quantidade de gente simples, gente do povo, e muitos poucos daqueles que chamamos de “amigos”.

A grande descoberta que terei feito neste ano será a do isolamento. O grande problema: preencher o fosso que hoje me separa de qualquer pessoa que vejo.

***
Quanto mais ligações temos com pessoas que dependem de nós porque gostamos delas ou simplesmente porque as conhecemos, mais aumenta o sofrimento. Sofrer em causa própria não é nada, nunca farei nenhuma queixa em relação a mim mesma, pois todo o sofrimento pessoal, no momento, é, para mim, uma vitória a ser conquistada. Mas que angústia em relação aos outros, aos meus próximos e pelos outros.

Entendo o tormento de mamãe, seu sofrimento é dez vezes maior, multiplicado pelo número de vidas que dependem dela.

“Saúde e alegria puras só podem existir numa pessoa egoísta. 
Um homem que pense muito nos seus semelhantes não pode ser feliz.”
Keats. Carta a Bailey. 



 Berr, Hélène.
O diário de Hélène Berr: um relato da ocupação nazista de Paris. Tradução Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

Tradução de: journal d’Hélène Berr. 307 p.

*Citação de John Keats.

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