O místico 12/12/12 trouxe boa
sorte. No dia seguinte fui comunicada que na terça-feira, 18 de dezembro, eu
apresentaria a temática “Cidadania e Direitos da Mulher” para o grupo de
mulheres do quilombo.
O conteúdo, o design e o roteiro da apresentação já estavam definidos há semanas, mas achava que ainda faltava alguma coisa. Decidi incluir filmes e atividades de artes visuais. Pesquisei sobre propostas de atividades e gostei muito de “ditado visual” e “pintando a música”. No Porta Curtas procurei filmes sobre imaginação e a expressão artística, e os eleitos foram: “A casa” (mímica), “O Amigo Invisível” (psicologia) e “O Rito de Ismael Ivo” (dança). O propósito consiste em aguçar a imaginação, a criatividade e a percepção.
Na véspera da apresentação, ao
verificar pela última vez a organização do material e a lista de recursos
necessários para a construção da aula, lembrei-me de um episódio ocorrido
quando era adolescente. Ainda no ensino médio, disse para minha
professora de literatura que gostaria de ser professora. E prontamente ela me
respondeu: não faça isso. E eu não fiz. Mas nem por isso desisti de trabalhar
com educação. A ponte que utilizo para educar está na arte e na cultura.
*Roteiro completo das atividades
no post “Cidadania e Direitos da Mulher”
Manhã de terça-feira, tudo
preparado para a aula. Cheguei com bastante antecedência à sala reservada para
o curso, e logo fui testar a eficiência dos recursos audiovisuais que fosse
utilizar. Já se encontravam na sala as cópias da cartilha de prevenção à
violência que fiz requisição. O material foi feito com tanto capricho. As
professoras responsáveis pelo projeto se dedicam muito a ele.
Estava previsto que o grupo de mulheres chegasse por volta das 08h20min. O que aconteceu às 10h20min. Segundo o que me consta, sempre há essa dificuldade no transporte. A orientadora até me disse que se o curso está em andamento é devido à força de vontade do grupo de mulheres do quilombo. Entende-se que as razões para elas estarem estudando é muito maior que qualquer dificuldade que enfrentem.
Estava previsto que o grupo de mulheres chegasse por volta das 08h20min. O que aconteceu às 10h20min. Segundo o que me consta, sempre há essa dificuldade no transporte. A orientadora até me disse que se o curso está em andamento é devido à força de vontade do grupo de mulheres do quilombo. Entende-se que as razões para elas estarem estudando é muito maior que qualquer dificuldade que enfrentem.
A orientadora me apresentou para
a turma e se retirou da sala. Agora era a minha vez. Segui o roteiro que
preparei. E também fui franca ao dizer que nunca tinha sido professora, e
esperava a participação do grupo para tornar o encontro do dia ainda mais
agradável.
Na verdade, no início do curso fui a uma aula para observar a turma e absorver a ideologia do projeto. Meses depois, estava eu diante do mesmo grupo de mulheres sendo apresentada como aquela que iria ministrar a aula do dia. Nunca imaginei que seria chamada de professora. A partir daquele momento eu me tornei professora para o grupo. Só sei que achei sensacional.
Na verdade, no início do curso fui a uma aula para observar a turma e absorver a ideologia do projeto. Meses depois, estava eu diante do mesmo grupo de mulheres sendo apresentada como aquela que iria ministrar a aula do dia. Nunca imaginei que seria chamada de professora. A partir daquele momento eu me tornei professora para o grupo. Só sei que achei sensacional.
O tema do dia tratava de “cidadania
e direitos da mulher”. Iniciei explicando o embasamento teórico para a escolha
do título do curso do dia, “Eu Sou Princesa”. E segui para o assunto
fundamental, o conceito e o exercício da cidadania. Algumas meninas
participaram bastante da discussão. O grupo até apresentou o prêmio que recebeu
da empresa Vale. Estavam extremamente orgulhosas do trabalho que realizam e dos
resultados alcançados. E exaltei ainda mais o reconhecimento obtido, dizendo
que estão fomentando cidadania, que a atividade que realizam na comunidade é de
muita importância para a própria comunidade e para a sociedade. Pois envolve
artesanato, ecologia, preservação da cultura e da arte, dentre muitas
atividades. Um exemplo de exercício da
cidadania.Segundo as mulheres, tem muita gente que diz que tem o sonho de conhecer a comunidade de Monte Alegre, e aquelas que conhecem relatam profunda admiração pela comunidade e pelas atividades promovidas. Enquanto a comunidade e até mesmo elas não valorizavam. Mas, já estão reconhecendo o tesouro que possuem, e o olhar que antes desprezava, agora passa a contemplar. E após um depoimento assim, foi minha vez de relatar o respeito que tenho pela comunidade, e como foi feliz a oportunidade de trabalhar com um grupo de quilombolas.

Pausa para o almoço. E pelo acaso, ouvi algumas meninas cochichando sobre a apresentação. Elas diziam que tinha muito conceito, e que precisava colocar música para prestarem atenção. Mas defendo e acredito no propósito da aula: ofertar conhecimento suficiente para que o grupo saísse daquela sala sabendo o que é cidadania, ser cidadão e como exercitar a cidadania. De qualquer forma, a maioria foi receptiva ao conteúdo. O que é positivo. Durante a pausa para o almoço conversei com algumas integrantes do grupo, e encontrei muita sabedoria, esperança, fé, alegria, entusiasmo, amizade e sede de conhecimento.
Já na sala de aula, a orientadora e uma estagiária pediram ao grupo que respondesse um questionário. A meninas estavam animadas, e falavam e se divertiam muito... após o almoço a animação tomou conta do ambiente.
Momentos de comédia:
Uma menina fala em voz alta uma
das questões: “as pessoas gostam de você?”.
E pergunta ao grupo “meninas,
vocês gostam de mim?”.
E de imediato ela própria
responde: “Não?! Tô traumatizada”.
...E não teve quem não
gargalhasse.
Depois foi mostrado o layout do
folder de inauguração do projeto, no qual a imagem delas ilustra. Não se
esperava nada mais do que muita empolgação.
E retomamos a aula. Propus uma
atividade com a finalidade de fixação do conteúdo sobre cidadania. Realizada
com êxito. O próximo assunto se referia aos direitos da mulher. O tema gerou
muita participação, dúvidas e informações. Algumas meninas expuseram suas
histórias, reflexões e opiniões. Outras imitaram o Cirilo, personagem da novela
Carrossel – exibida no SBT. Acabou se tornando um momento interessante , extrovertido e
emocionante. E também fiquei comovida com obstinação de uma senhora. Ela me
dizia que possui dificuldade de leitura e escrita, mas quando pedi para o grupo
que participasse da leitura da cartilha, lá estava ela participando junto.Algumas mulheres do grupo tentavam dormir, e eu pedia que fossem acordadas. Uma delas começou a bagunçar e eu pedi que fosse dar um passeio no corredor. Quando se distraíam com qualquer outro assunto e geravam conversa paralela, eu cortava a conversa e retornava ao assunto do curso. Compreendo que algumas estavam cansadas e outras achando a aula chata, mas em respeito às demais que estavam dispostas a aprender é que eu exigia disciplina de todas. É como diz na gíria: eu não alivio para ninguém.
Pausa para o lanche. O momento do lanche nem pausa teve. Enquanto lanchavam assistiam o restante das produções audiovisuais, para então concluirmos o assunto. Devido ao atraso pela manhã, a aula sofreu limitações de tempo. Enfim, a temática essencial do dia foi transmitida obedecendo rigorosamente ao roteiro de atividades. Apenas as atividades de artes que não puderam ser realizadas como se previa. Um curta-metragem foi exibido por completo e os demais
E por fim, a despedida. As
mulheres agradeceram e ganhei o abraço de agradecimento de muitas delas. Eu
estava representando todos os professores e orientadores que participam(ram) do
projeto. Pois, em fevereiro tem mais... E eu vou produzir um documentário sobre
a experiência delas no projeto. Além das apresentações culturais.
Ah! As meninas ficaram gritando
do ônibus... Professora! Professora!
E como eu ainda estava no segundo
andar do prédio, da sacada fui saudá-las!
A cultura afro-brasileira merece
nosso respeito!
Projeto: Mulheres Mil
Idealizador: Governo Federal
Organizador: IFES – campus Alegre
Público atual: mulheres
quilombolas
Comunidade de Monte Alegre –
Burarama – Cachoeiro de Itapemirim/ES
Referências das atividades:
profclaudiaartes.blogspot.com
http://www.escolainterativa.com.br/
“Princesas,
portanto, mulheres. Não apenas mulheres, em suas dimensões humanas:
heroínas na luta pelo pão-nosso e pela sobrevivência diária,
frágeis diante da morte, leoas no exercício da função materna,
mulheres com vontades e desejos... Para além
disso, mulheres especiais, que se distinguem das outras em sua
superioridade, seja em graça, beleza ou astúcia. Guerreiras,
sensíveis, capazes de perceber um grão de ervilha sob pilhas de
colchões de plumas. Ungidas pelos deuses no nascimento e donas do
direito divino de povoar as cabeças dos homens. Princesas, qual
promessa de flor, também à espera dos varões que as farão reinar
em seus próprios castelos. Mas também africanas. Em sua maioria, negras,
exuberantes e fortes (…)”. (Princesas Africanas)











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