terça-feira, 20 de novembro de 2012

Vitória Cine Vídeo - 19°

Na capital, o veterano Vitória Cine Vídeo, em sua 19° edição, ofereceu com fartura obras cinematográficas no intuito de competição e mostras. E contava com as expectativas dos diretores e equipes envolvidas com as obras selecionadas. Além de convidados e homenageados que apresentaram sua trajetória no cinema e no teatro. O entusiasmo virou a força motriz do evento.

Ah! as oficinas... Maravilhosas. Buscou-se extrair do grupo presente o compromisso no sentido da integração entre as oficinas. Participei das oficinas de Roteiro e Direção.

Roteiro: José Roberto Torero
Direção: Jorge Bodanzky
Finalização: José Rubens Hirsch
Trilha sonora: David Tygel

Locais de realização das oficinas:
Hotel Ilha do Boi
UFES - Universidade Federal do Espírito Santo

DIÁRIO do Palco

Manhãs de Segunda, Terça e Quarta.

A turma do roteiro era formada por profissionais de áreas distintas. Deparava-se com advogado, psicólogo e psicanalista, fotógrafo, jornalistas, filósofos, a galera do audiovisual, atores, empreendedores. Enfim, alguns estudantes e demais com experiência no mercado profissional e, eu por eu mesma, como a única publicitária (representante da classe muito linda que é a publicidade) e com certo (modestamente) conhecimento em produção audiovisual e cinema.
Sobre questões de formatação, objetivo e desenvolvimento de roteiro eu procurava prestar atenção, observava e absorvia as informações que selecionava. Também procurava interagir com todos, sempre disposta a ouvir o que tinham a dizer. Acredito que perspectivas de um mesmo assunto dispõem muita reflexão, tem muito valor.
A turma participava com afinco das atividades. O pessoal estava muito empolgado. E eu também. Isso até o momento que o orientador disse que odiava publicidade, (mas ele não fez por mal... acredite!). Toda jururu juntei-me ao grupo dos rapazes de filosofia. Ainda muito perturbada, contei o baque que foi o comentário e um deles disse: “A verdade às vezes é radical”. E continuamos as atividades.
Manifestei-me quando se tratou da questão da identidade capixaba, cujo objetivo era produzir filmes organizados por etapas de execução de pré-produção, produção e pós-produção. Assim, entre muitas sugestões vindas da turma, definiu-se como temas a moqueca capixaba, a alma capixaba e os alagamentos (também capixaba).  Mais uma coisa, denomina-se vitoriense o natural de Vitória-ES.
Durante a polêmica do debate um advogado afirmou categoricamente que o congo só o capixaba tem. E claro que protestei, mesmo concordando em parte, mas configurando que em questão de volume é que a identidade está sem definição, ou é muito similar à vizinhança com que faz divisa. A partir do episódio, logo o grupo foi formado. Três rapazes, com temperamento bem diferente um do outro, e eu. Roteirizamos sobre a moqueca capixaba, mas ainda faltava o tempero. E fui eleita mediadora entre as oficinas.

Tardes de Terça e Quarta.

Agora vamos à oficina de direção. Parte do grupo de roteiro se encontrava lá. Os demais mais afinados com produção audiovisual. O que gerou boas discussões. Adoro discussões que promovem conhecimento. Daí foi apresentado filmes com depoimentos de cineastas. Foi ótimo saber que ficcional e documentário não tem diferença: é tudo filme.
Mas a “queda de braço” foi um momento épico. A questão tratava-se da postura dos editais de incentivo à produção audiovisual. Direcionar mais investimentos para filmes comerciais ou para filmes que exploram a temática social e cultural, militante ideologicamente? Eis a questão.
Foi um embate sensacional. Até o orientador fixou o olhar nos (de)batedores. Resolvi falar de um artigo que dizia que devia haver um nivelamento nos interesses de investimento. O orientador completou dizendo que a indústria precisa ganhar dinheiro. Contudo, uma questão respeitavelmente complexa.
Na tarde seguinte encontrei mais dois membros para a equipe da produção do filme da moqueca. Ambos piraram no desenvolvimento da ideia do roteiro. E pode-se definir o que seria gravado. Tínhamos um roteiro, uma locação no boteco do Bigode, três atores profissionais (da oficina de atores e o outro convidado), um cinegrafista e a versão de Tarantela, esta gritada (cita os ingredientes da moqueca). Mas muitos diretores.

Manhã e Tarde da Quinta.

Na manhã seguinte mostrei para a equipe do roteiro,  não o que seria as alterações, mas o espichamento do roteiro. Até aí tudo bem. Logo a tarde seria a gravação. E foi. Gravamos(ou-se) na vila de pescadores da Enseada do Suá e no boteco do Bigode. (Apenas gostaria de ter sido avisada da extensão da escadaria que se encontra no percurso). Entre encontros e desencontros, a moqueca foi preparada pelo especialista em moqueca: Sir Bigode. Nossos queridos atores Fábio Samora, Jota Jota e Markus Konká, que encenaram o mineiro e o baiano, estes amigos de um capixaba muito malandro. No final da tarde a chuva batizou a produção do filme.

Manhã, Tarde e Noite da Sexta.

O dia D: de muita intriga, confusão, surpresas, gentilezas, satisfação, modéstia... A nossa moqueca de emoções. 
Manhã de sexta-feira. Perdi minha carona. A chuva insistia em cair. Mas cheguei ao meu destino. Deparo-me com parte da minha equipe e a equipe da próxima fase: a finalização. Aquela manhã eu me senti desnorteada, de verdade. Foi desentendimento atrás do outro. A finalização não entendia o roteiro, a turma do roteiro criticava alterações e desmembramentos feitos pela turma da direção, os integrantes ali presentes não se entendiam. Viiixe... E gente que se intrometia em conversa que não era chamado (ô vergonha!). Pensei, pensei, pensei... Fui arejar os pensamentos. Até que chega mais uma integrante da equipe, esta da direção. E pergunta? “Que esquizofrenia estão fazendo com o filme?”. No fim das contas, nem eu sabia.
Como a turma do roteiro e da direção precisou se ausentar, assim, supostamente, alguém haveria de representar o grupo. Já era oficial. Até eu mesma tentei me ausentar, mas a caçada não foi em vão. Encontraram-me! Sentei-me frente aos responsáveis pela finalização. Expliquei a situação, a partir daí, foi possível chegar a um acordo. Foi uma negociação até bastante amigável. Repare que antes disso achei que ia para uma sala de interrogatório, com a luz baixa e possivelmente seria torturada. Mesmo depois de tanto desatino, até almoço nos foi oferecido, gentileza do Sr. Ivan, da equipe de finalização.
Após o almoço, continuou-se o processo de finalização do filme. O ambiente se encontrava mais harmonioso e o trabalho a todo vapor. Próximo do horário das apresentações dos produtos, “A Moqueca” chegava ao teatro para, então, ser preparada pela orquestra. Toda a trilha sonora seria apresentada ao vivo, portanto, aquele seria o momento de definir músicas, entradas e cortes. Dirigi parte dos interesses do filme. No finalzinho, alguns dos integrantes da equipe chegaram e definiram a maneira deles a entrada da última música. Disse que não concordava, mas acatava por uma questão de democracia. De qualquer forma a proposta é de experimentação. No final das contas, um dos orientadores me abordou e disse que a minha direção era a correta. Pulso firme não é desrespeito. Nem toda publicidade é do mal. Capiché.
Em seguida, foi possível apreciar todos os filmes. A apresentação ao vivo da orquestra foi um primor, formidável. Foram resultados imaginados e planejados em menos de uma semana. O êxito alcançado por cada uma das equipes.
Eu acredito nas possibilidades, você sabe que eu acredito que é possível produzir cinema e/ou audiovisual neste país. Arte!

No final, pedi uma fotografia para Jorge Bodanzky. 
Neste momento ele me disse: "Admirei sua coragem naquelas escadas".
E respondi: "Eu nunca abandono minha equipe".

Respeito, dignidade e trabalho em equipe: aprendi muito com meus professores.

Não poderia deixar de dizer que além de profissionais reconhecidos pela competência,
Jorge Bodanzky, elegância e atitude
José Roberto Torero, divisível emoção
José Rubens Hirsch, o mais divertido de toda a galáxia
David Tygel, disciplina e êxito

"Aos nossos mestres que nos convidaram a voar em sua sabedoria, mesmo sabendo que este voar dependeria das asas de cada um de nós".

Oficinas Integradas – por Tiago Firmino
Fimes: Alma Capixaba, A Moqueca e Tibum...!

https://www.youtube.com/watch?v=z8INhItDKTo

Agradecimentos
A todos os envolvidos na produção do filme A Moqueca.
Generosidade e modéstia são admiráveis.
Aos apreciadores de produções cinematográficas,
foi uma grata experiência a semana que estivemos reunidos.

Fonte: www.vitoriacinevideo.com.br/19vcv/



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